quarta-feira, 16 de junho de 2010

Saneamento Básico e Saúde

Saneamento básico é fator de proteção à qualidade de vida, sua inexistência compromete a saúde pública, o bem estar social e degrada o meio ambiente. Qualidade de vida e meio ambiente estão intrinsecamente relacionados. É preciso preservar o meio ambiente fazendo-o permanecer salutar.

As doenças oriundas da falta de saneamento básico são decorrentes tanto da quantidade como da qualidade das águas de abastecimento, do afastamento e destinação adequada dos esgotos sanitários, do afastamento e destinação adequada dos resíduos sólidos, da ausência de uma drenagem adequada para as água pluviais e principalmente pela falta de uma educação sanitária.

Para o engenheiro sanitarista é conveniente classificar as doenças infecciosas em categorias relacionando-as com o ambiente em que são transmitidas, desse modo:
- Doenças infecciosas relacionadas com a água,
- Doenças infecciosas relacionadas com excretas (esgotos),
- Doenças infecciosas relacionadas com o lixo,
- Doenças infecciosas relacionadas com a habitação.

As doenças infecciosas relacionadas com a água

As doenças infecciosas relacionadas com a água podem ser causadas por agentes microbianos e agentes químicos e de acordo com o mecanismo de transmissão destas doenças podem ser classificadas em quatro grupos:

1º. Grupo: Doenças cujos agentes infecciosos são transportados pela água e que são adquiridos pela injestão de água ou alimento contaminados por organismos patogênicos, como por exemplo: Cólera (agente etmológico: Vibrio Choleras); Febre tifóide (agente etmológico: Salmonella Typhi); Disenteria bacilar (agente etmológico: Shigella Spp); Hepatite infecciosa (agente etmológico: Vírus), etc.

2º. Grupo: Doenças adquiridas pela escassez de água para a higiene. Estudos realizados em várias comunidades comprovaram que a quantidade de água é mais importante que a qualidade. Quando se aumentou o volume de água utilizado pela comunidade verificou-se uma diminuição na incidência de certas doenças do trato intestinal porém a diminuição não foi significativa quando se melhorou a qualidade. A falta de água afeta diretamente a higiene pessoal e doméstica propiciando principalmente a disseminação de doenças tais como: Diarréias, responsáveis por grande parte da mortalidade infantil; Infecções de pele e olhos: sarnas, fungos de pele, tracoma (infecção nos olhos), etc.; Infecções causadas por piolhos, como a febre tifo.

3º. Grupo: Doenças adquiridas pelo contato com a água que contém hospedeiros aquáticos. São aqueles em que o patogênico passa parte do seu ciclo de vida na água, em um hospedeiro aquático (caramujo, crustáceo, etc.) Um exemplo clássico é a esquistossomose, em que, a água poluída com excretas e que contém caramujos aquáticos, proporciona o desenvolvimento dos vermes de shistosoma no interior dos caramujos.

4º. Grupo: Doenças transmitidas por insetos vetores relacionados com água. São aquelas adquiridas através de picadas de insetos infectados que se reproduzem na água ou vivem próximos a reservatórios de água (mananciais, água estagnadas, córregos, etc.), como por exemplo: Malária (vírus) transmitida por mosquitos do gênero Anopheles; Febre amarela e dengue (vírus) transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, que se reproduzem em água limpa como, por exemplo, latas d’água, pneus com água, etc.; Doenças do sono (causa sono mortal) que é transmitida pela mosca “tsetse” (Glossino longipennis) que se reproduz e vive nas vegetações das margens de córregos, picando as pessoas que vivem em áreas próximas; Oncocercose (causa cegueira), transmitida pela mosca (Simulium) que põe seus ovos em córregos de fluxos rápidos e bem aerados.


Além das doenças infecciosas relacionadas à água, existem as doenças relacionadas com os esgotos e a segunda parte do saneamento básico, que é a devolução e o tratamento da água que chega aos domicílios. São doenças trazidas pelos esgotos aquelas causadas por patogênicos (vírus, bactérias, protozoários e helmintos) existentes em excretas humanas, normalmente nas fezes ou transmitidas de várias formas como, por exemplo: Contato de pessoa a pessoa: poliomielite, hepatite A; Ingestão de alimento e água contaminada com material fecal: salmonelose, cólera, febre tifoide, etc; penetração de alimentos existentes no solo através da sola dos pés: áscaris lumbricoides, ancislotomíase (amarelão), etc.
Pesquisas e monitoramento da qualidade da água
Desde 1996, o ISC – Instituto de Saúde Coletiva da UFBA vem fazendo uma avaliação epidemiológica e de impacto do Bahia Azul sobre os níveis de saúde da população de Salvador e entornos abrangidos pelo programa. Além disso, foi firmado contrato de cooperação entre SEDUR, SESAB e o ISC. Foi constatada uma diminuição na prevalência da infecção por helmintos e protozoários intestinais de 30% entre os escolares e de 50% em crianças em idade pré-escolar.

Apesar das confiantes estatísticas do Programa Bahia Azul, alguns pesquisadores não acham suficientemente limpas as águas que abastecem Salvador."Foram realizadas análises bacteriológica e físico-química em 310 amostras de água nos anos de 1997 e 2003. Os resultados indicam que, apesar do alto investimento do Programa, a qualidade da água fornecida continua não atendendo aos padrões de potabilidade, agravando-se no interior dos domicílios pelo manuseio inadequado dos consumidores."

Foram feitas analises a partir de micro-áreas da cidade de Salvador. Doze micro-áreas estão situadas no Subúrbio Ferroviário, envolvendo as bacias de Paripe, Periperi, Cobre e Lobato. Esta área é tipicamente de população de baixa renda, com condição precária de moradia, infra-estrutura e saneamento. Outras nove micro-áreas estão localizadas nas bacias do Calafate, Médio Camarajipe e Tripas e estão situadas em uma área mais consolidada e central da cidade, dispondo de infra-estrutura e condições de saneamento precárias. Três micro-áreas estão localizadas no bairro de Itapuã, na bacia de Mangabeira, antes tipicamente de veraneio e hoje, tipicamente de população de baixa renda. Dez micro-áreas estão localizadas nas bacias da Barra e Armação, em áreas que dispõem de infra-estrutura sanitária e abriga população de renda média a alta. Isto, no entanto, não impede que haja uma micro-área na bacia de Armação, que é tipicamente de baixa renda.

Do ponto de vista bacteriológico, as duas etapas da pesquisa mostraram resultados preocupantes quanto à situação da qualidade da água distribuída na cidade do Salvador (Tabela 6). Na 1a etapa da pesquisa (janeiro a junho de 1998) verificou-se que das amostras de água coletadas na rede de distribuição das micro-áreas, cerca de 8% apresentaram coliformes termotolerantes e 14,5% coliformes totais. Cerca de 8,25% das amostras tinham contagem total de bactérias acima do permitido pela Portaria 36/90 do Ministério da Saúde, então em vigor. Na 2a etapa (outubro de 2002 a março de 2003) foi detectado que o percentual de amostras com presença de coliformes termotolerantes diminuiu, ficando em cerca de 5,8%, porém aumentou o percentual de coliformes totais para cerca de 20,32%. O percentual de amostras com contagem total de bactérias acima do permitido reduziu, ficando em cerca de 2,3%.

Ao se avaliar as amostras coletadas nos recipientes de água de beber – água de beber, percebe-se que os níveis de contaminação se ampliaram, em ambas as pesquisas. Na 1a etapa, cerca de 55% das amostras possuíam contagem total de bactérias acima do padrão, 56% tinham coliformes totais e 37% termotolerantes. Assim, os níveis de contaminação elevaram-se em 285% para o parâmetro coliforme total e 361% para o termotolerante.

Na 2a etapa, 52% das amostras possuíam contagem total de bactérias acima do padrão, 65% tinham coliformes totais e 38% termotolerantes, elevando em 219% o parâmetro coliforme total e 555% para o termotolerante.

É importante observar que segundo a norma brasileira, a Portaria No. 1469 do Ministério da Saúde que define os padrões de potabilidade, a existência de coliformes termotolerantes em uma única amostra já indica desconformidade com os padrões estabelecidos.

Nos anos estudados, os resultados da pesquisa indicaram que a qualidade da água da cidade do Salvador estava fora dos padrões de potabilidade estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Assim, os investimentos em abastecimnento de água e esgotamento sanitário realizados pelo Programa BAHIA AZUL não foram suficientes para promover a melhoria da qualidade da água de consumo humano na cidade. Tanto a qualidade da água distribuída pela Concessionária Estadual – água da rede, como a consumida pela população no domicílio – água de beber, não atenderam aos padrões de potabilidade. Os resultados da pesquisa realizada nas micro-áreas, no ano de 2002, indicaram que houve um aumento estatisticamente significativo de coliformes total e termotolerante entre as amostras coletadas na rede de distribuição e no domicílio. Esse aumento chegou a 219% para coliforme total e 555% para coliforme termotolerante.

Os resultados da 1a etapa da pesquisa demonstraram que o nível de contaminação da água era maior no Subúrbio Ferroviário, fato certamente relacionado à intermitência do serviço e a falta ou precariedade do esgotamento sanitário. Na 2a etapa, após as intervenções do Programa BAHIA AZUL, houve uma melhoria na qualidade da água nessa região. No entanto, avaliando os resultados da 1a. etapa em relação aos da 2a. (antes e após o BAHIA AZUL), conclui-se que a diminuição do número de amostras com coliformes termototelantes de 8,02 para 5,8, não foi estatisticamente significante, indicando que as intervenções do Programa não influenciaram nos níveis de contanicação água.

Em 1997, os resultados dos níveis de contaminação bacteriológica da água da monitorização realizada pela EMBASA na rede distribuição da cidade seguiram padrão similar aos da pesquisa realizada nas micro-áreas, apesar da localização distinta dos pontos monitorados e do período também distinto da realização das coletas de água.

Porém, em 2002, observou-se discrepância dos resultados da EMBASA em relação aos da pesquisa realizada nas micro-áreas (outubro de 2002 a março de 2003). Diante desses resultados, urge que a EMBASA, a Secretaria de Saúde do Estado e a Secretaria Municipal de Saúde realizem esforços conjuntos no sentido de adotar medidas urgentes para que a qualidade da água distribuída e consumida pela população a cidade atenda aos padrões de potabilidade estabelecidos pela Portaria 1469/2000 do Ministério da Saúde, garantindo-se assim, o direito do cidadão de consumir água potável.

Para saber mais sobre o trabalho dos pesquisadores Maria Lúcia Politano Álvares, Patrícia Campos Borja, Luiz Roberto Santos Moraes e Marion Cunha Dias, acesse a pesquisa na íntegra clicando aqui.

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